Me Qualificar Para Que?

Quando leio uma notícia dessa, afirmando (de acordo com uma pesquisa do IBGE) que quem mais se qualifica é exatamente quem demora para arrumar colocação no mercado, dá vontade de mandar meus 21 anos de estudos pr'aquele lugar e aceitar que a realidade é assim mesmo.


Mas, como tudo na vida é escolha e eu escolhi ser nerd mesmo, vou tecer alguns comentários acerca desta notícia, começando com uma frase da própria reportagem:


"É verdade que a procura por profissionais qualificados só cresce no Brasil, mais ainda com a chegada de investidores internacionais que enxergam o País como a bola da vez. O problema é que ter faculdade não significa ser qualificado para as atuais oportunidades."


Pequenas notas:

Ter faculdade ou qualquer outra coisa que qualifique o indivíduo nunca foi garantia de nada. Isto apenas aumenta a probabilidade de arrumar algo que o sujeito vislumbre ou escolha pra si. Mas já que faculdade foi o ponto preferido de escolha da reportagem para falar desse desemprego, vamos tomá-lo como foco. Por que diabos fazer faculdade não me credencia a ter um emprego me esperando lá fora?

Todo universitário entra na faculdade achando que o mundo lá fora é lindo e cheio de oportunidades. Ok, para alguns até pode ser que seja, mas a maioria amarga a realidade: não tá fácil não, bebê.

Enxergo várias possibilidades que podem causar isso. A primeira delas é o inacreditável distanciamento que existe entre mercado e academia. Parece que os dois não se bicam ou se odeiam. Existem vários esforços dentro da academia para que esse fosso diminua, mas a real é que há dois mundos completamente distintos, o que me faz crer que inovações e oportunidades sejam jogadas pelo ralo constantemente.

Outra é uma consequência desta acima: estudantes universitários não possuem estágios na área. Não há programas de incentivos ou mesmo parcerias que façam com que o estudante realmente conheça sua profissão. Lógico que falar que não existe nenhum esforço é generalizar, pois existem pingados cursos que trazem para dentro da universidade um pouquinho do que encontram lá fora, mas isto não é a regra, é a exceção.

Passando um pouco a visão para as empresas, ainda existe um certo preconceito, digamos assim, com relação a fazer parcerias com universidades. Ainda existe a visão de que acadêmicos não sabem nada do mundo prático pois ficam trancafiados em suas bolhas, imaginando o imaginável. Fora que a maioria dos empregos formais no Brasil são oferecidos por MPEs (Micro e Pequenas Empresas) e grande parte desta ainda não possui uma cultura organizacional que valoriza a qualificação dos seus empregados. Porém, isto está mudando espero.

"pessoas qualificadas também preferem esperar por oportunidades melhores. Aqueles que não têm tanto preparo ou experiência aceitam oportunidades inferiores, sem avaliar muito, e trocam de emprego com mais frequência"

Pessoas qualificadas tem um custo de oportunidade bem alto no presente, pois escolheram estudar a arrumar um emprego que o remunere durante um período mínimo de 4 anos (fora as pós graduações da vida que alguns fazem). Logo, nada mais "justo" que depositar seu investimento em algo que realmente valha a pena (e isso vai de acordo com cada um).

Já as pessoas que não possuem qualificação ou experiência querem mesmo é adquirí-las a um custo que só elas sabem definir qual. Se nego achar que um salário mínimo é miséria e definir que ficar em casa é melhor, a escolha é toda dele.

Por fim, digo que na verdade nada está garantido para seu ninguém (a não ser que você tenha herdado uma fortuna e não caia na burrice de torrá-la de uma vez). O que deve ser dito é que ao aparecer uma oportunidade que lhe agrade, não importe os motivos, agarre-a e faça diferente. O resto vai por conta e consequência!



Comentários

  1. Cibele,

    triste notícia: graduação de economia não serve para nada, pois não emprega. Falar em Anpec é fácil, mas poucos acadêmicos sabem o que é o mercado de trabalho. Fazer mestrado e doutorado sem nunca se preocupar com a CTPS é o caminho mais fácil (e rápido) da profissão. Bom, economia é como sociologia: não serve para o mundo real. Só via concurso que temos o emprego. Com n especializações, fica bem mais fácil de passar no certame.

    Confesso que minha porta aberta se deu porque fiz uma especialização na área de humanas - cinema para ser mais exato. Foi a melhor coisa que fiz profissionalmente: largar o mestrado em economia da UFRGS para cursar PG em cinema.

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  2. Cristiano,

    Por isso que falo que vida de graduado em economia é estudar pra Anpec, pois é o caminho mais rápido para tentar ser alguma coisa na área.

    Mas minha crítica não foi apenas para o curso de economia em si, mas para todos. Não há um estreitamente de relações entre Academia/Mercado de Trabalho.

    Vejo muitos estudantes estagiarem em áreas completamente diferentes apenas para por no currículo que um dia já trabalhou.

    Lembro que na minha grade curricular tinha "Estágio 1" E "Estágio 2". Nunca estagiei em nada e em nenhum lugar por conta de alguma parceria que a universidade podia ter.

    Na época, fui atrás por conta própria!

    E ahh cinema, deve ser bem mais interessante hehe.

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  3. Se você é engenheira, médica, contadora, licenciada em letras, advogada e jornalista, há sim relação com academia e mercado de trabalho. Problema é economia mesmo. Só existe mercado no setor público ou São Paulo. Ramo ruim que escolhemos.

    Cinema é um curso, digamos, libertário e libertino até dizer chega. Confesso que consegui juntar as duas coisas até 2004. Dava consultoria em finanças para o áudio-visual. Essa coisa de Lei de Incentivo à Cultura e sua alocação na produção. Um dia, um cliente me deu o cano, quebrei e assim foi a vida. O filme saiu e é uma bosta. Até hoje, se encontro o camarada na rua, corro o risco de assinar um 129.

    Eu fiz estágio na área comercial duma firma de RH. Confesso que trabalhava bêbado. Gloriosos vinte e poucos anos. PUCMG, em relação a estágio, era uma piada. Sei lá como é no século XXI.

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