E a Cultura?

Eu não lembro exatamente onde foi que vi este abaixo-assinado dos artistas cearenses ou pessoas ligadas à cultura no Ceará (as engajadas) reinvindicando melhorias na gestão e principalmente, investimento na área.

Acho bacana que profissionais busquem melhorias para os setores que trabalham, pois sabemos que viver de cultura no Brasil é complicado e, pensando cá com meus botões, puxando o pouco o cenário para a cidade que vivo, arrisco em dizer um dos motivos pelos quais o negócio não emplaca tanto por aqui.

Se pegarmos o Censo 2010 de Fortaleza e olharmos os números referentes às características urbanísticas do entorno dos domícílios, teremos uma pista do que acontece. Lá encontramos a quantidade de domicílios que carecem de iluminação pública, saneamento básico, calçada, pavimentação, arborização e até identificação do lohgradouro.Ou seja, aspectos básicos de uma moradia decente.

Se andarmos em Fortaleza (que não sei como ganhou o título de melhor calçada do país..) iremos verificar tudo isso de perto. Do bairro com maior poder aquisitivo à periferia, as pessoas ainda vivem aqui de maneira precária. É um asfalto que só dura até a primeira chuva forte do ano, bueiros estourados, calçadas irregulares e etc. A pergunta que faço é: como é que alguém que vive em uma cidade que não tem uma gestão capaz de melhorar a infraestrutura básica vai demandar cultura?

O que quero dizer é que há gargalos e estes podem ser priorizados em detrimento à outros assuntos - como cultura, pois o gestor ao assumir seu cargo,  irá definir as prioridades, fazer seu plano de governo para aquela cidade e ele só define prioridades quando as identifica.

Fortaleza é uma cidade que não tem tanta opção de lazer. Ao abrir o jornal, por exemplo, há poucas alternativas de peças teatrais, apresentações musicais, filmes em cartaz, amostras culturais, enfim. O lazer daqui se resume a ir para um bar beber com os amigos, ir para o Forró no final de semana ou então ir para o shopping e fazer o dinheiro circular. Centros culturais existem em poucas quantidades e são comumente frequentados por pessoas que vivem no meio cultural e tais pessoas podem se considerar minoria.

Mas essas poucas opções são reflexos da falta de investimento do Estado ou porque a própria população ainda não sentiu a necessidade de consumir esta "cultura"?

Será que o engajamento voluntário de pessoas ligadas a esta área não pode fazer a diferença? Será que somente o Estado é capaz de fomentar o desenvolvimento cultural em Fortaleza ou em quaisquer cidades no Estado do Ceará?

Confesso que esta dependência em torno desta ajuda me incomoda. Vejo tantas manifestações em bairros periféricos,  feitas pelas próprias pessoas que ali convivem, que sempre me faço esta pergunta: o Estado é o propulsor determinante para que as pessoas consumam cultura?

Lógico que com as melhorias em setores como educação pode sim estimular que o cidadão passe a consumir os bens culturais aí ofertados. Mas acredito que esperar menos do Estado e, tentar buscar parcerias alternativas é bem válida até que as pessoas aqui vejam o quão é maravilhoso desfrutar de uma estrutura que te proporcione várias alternativas de entretenimento e conhecimento.

Enfim, não é uma crítica a este abaixo-assinado, apenas uma reflexão de quem deseja muito morar em uma cidade que proporcione um ambiente capaz de instigar e aguçar nossos sentidos.


Comentários

  1. "Cultura" em solo brazuca é mamadeira das boas. Aqui em Minas é um ralo dos bons para vermos sempre as mesmas coisas. Ei, Clube da Esquina terá um museu facilitado pelo benevolente governo local.

    Sobre as calçadas, o dia em que vomitar bebaço nas ruas de Fortaleza, poderei falar sobre as justas qualidades das obras locais. Até agora, o local campeão foi um tunel no centro de Porto Alegre.

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