Sobre a Nova Lei Seca

A nova lei seca alerta o potencial assassino que um bombom de licor poderá me dar caso eu decida comê-lo e sair de carro para algum lugar, assim como um enxaguante bucal, um remédio ou qualquer outra coisa que contenha álcool em sua fórmula, poderá me transformar em uma homicida. Ou seja, sou considerada tão bêbada quanto alguém que tomou um engradado de cerveja num bar pela nova ótica do Estado.

E, cá pensando com meus botões, fico imaginando o quanto tal medida é puramente arrecadatória. Não é questão de ser cruel, desalmada ou não ter tido algum parente que por ventura tenha morrido em decorrência de um acidente de trânsito provocado por alguém bêbado. Não, nada disso. A questão é outra.

Imagine uma sexta qualquer após uma jornada de trabalho. Você e seus amigos decidem esticar em um barzinho próximo a empresa - o bom e velho happy hour pra relaxar qualquer cabeça depois de uma semana inteira de labuta. E você, um cidadão exemplar, sabe que não deverá conduzir um veículo após ingerir bebida alcoólica. Pois bem, quais são suas opções de retorno em solo brasuca?

Se não for incômodo pra ninguém, você poderá optar pela carona de algum colega. Mas com a gasolina lá no alto ou se morares em uma rota muito distante do bondoso amigo, fica difícil tal opção. Ele no máximo poderá te deixar no ponto de táxi mais próximo do bar.

Ao chegar lá, você observa que andou gastando em demasia e que pouco sobrara pra pagar uma corrida até sua casa. "Ué, mas eu posso negociar a corrida com o taxista!", você pensa. Mas imediatamente lembra que  os táxis em sua cidade possuem preços tabelados e determinados por uma cooperativa autorizada pelo município, a operar onde moras.

Caso sua cidade tiver metrô, ele provavelmente estará fechado após meia-noite. Ônibus também poderia ser uma opção, caso este circulasse em horários pouco convencionais e, se circulassem, seriam bom que a probabilidade de ser queimado em uma parada de ônibus ou só apenas assaltado fossem remotas. 

Estou retirando das opções de retorno a bicicleta e o velho "pé dois" (no bom cearês). As chances de perder a vida ou algum objeto são as mesmas que esperar o ônibus na parada. E aí, o que fazer, então?

Melhor ir pra casa depois do trabalho e beber por lá mesmo. Afinal, o Estado Brasileiro quer me proteger de quem tem potencial homicida ao dirigir um veículo após ingerir qualquer coisa que contenha álcool.

Muitos dizem "Só vai assim: tolerância zero!", mas não percebem que estão ceifando sua própria liberdade. Perceba que o mesmo Estado não te dá a liberdade de escolha no trajeto de volta após uma leve passada no bar. Não há escolha quando não há poder de barganha em cima do que é disponível por ele. Ou você aceita as condições dadas ou é enquadrado como perigo eminente nas ruas brasileiras.

"Mas é para o nosso bem..." tens certeza disso? Paga-se impostos para que haja condições comuns a todos, é doado parte do salário de cada contribuinte para que todos tenham condições de transitar pela cidade, mas mesmo assim os trilhões arrecadados não são suficientes para suprir isto? Além entregar parte da nossa renda, tem-se que dar também mais de nossa liberdade? Mas já não se tem o suficiente?

Enfim, vejo nova medida com muitas ressalvas e preocupações, querendo saber qual será a próxima liberdade tomada de mim, com a prerrogativa de me defender dos demais.

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