Algumas Considerações Sobre a "Cura Gay"

Confesso que ainda não tinha lido sobre tal assunto que anda tão em voga no país - depois dos protestos, obviamente, e como vi muita gente revoltada, achando que este teria sido aprovado de forma oportunista visto que as atenções brasileiras não estavam voltadas para a comissão que a aprovou (ok, e quando é que sempre está?), resolvi dar uma olhadinha.

Pois bem, o Projeto de Decreto Legislativo (PDC 234/2011) ou popularmente denominado de "Cura Gay"  tem com objetivo revogar a resolução CFP Nª 001/1999  que estabelece normas de atuação para psicólogos com relação às questões que envolvem a orientação sexual humana.

De cara, já não sou muito fã de conselhos ou quaisquer órgãos que engessam ou tentam restringir a liberdade profissional das pessoas.  Acho que a flexibilidade da profissão, bem como a sua multidisciplinaridade, visto que nenhuma profissão vive isolada das demais, fica um pouco comprometida.

Pegando a resolução que disponibilizei acima, temos que as suas normas serão pautadas considerando que o psicólogo é um profissional de saúde, ou seja, por definição este profissional lida com patologias, não poderá adotar postura que force o tratamento de uma pessoa homossexual e nem participe de ações que propunham algum tratamento do homossexual.

Bem, ai vem minha primeira indagação, pautada no sentimento sempre investigador do Homem, que sempre busca melhor conhecer-se e verificar as causas de fenômenos. Diante disso, pergunto: caso um profissional tenha uma linha de pesquisa voltada para a tese de que a homossexualidade poderá ter um viés psicológico, este não poderá defender seu ponto de vista? 

Mesmo que tal trabalho vá de encontro ao que várias pessoas da área ou o próprio senso comum não aceite, é correto calar este profissional que quer apenas demonstrar seus argumentos? A resposta mais óbvia é que não (a não ser que a liberdade de expressão seja abolida do nosso pais).

Outra questão que me permeiou a mente é de que se uma pessoa desejar e ela mesmo achar que ser homossexual é algo "anormal", ela mesma não poderá procurar uma ajuda profissional? Alguém que possa tentar ajudá-la a se conhecer melhor? Ou seja, a pessoa não está se sentindo bem com isso - por diversos fatores, ela não tem o direito de buscar um profissional que a ajude? 

"Ah.. mas o psicólogo não pode persuadir tal pessoa a acreditar que esta está doente." E dificilmente o fará, afinal, quem já frequentou um sabe que as sessões estão mais para um bate-papo informal do que uma "sessão de exorcismo". 

Pessoas vão à psicólogos por vários motivos e quase sempre não há uma patologia envolvida (apesar dos esforços contínuos de alguns em fazer de tudo uma doença). Muitas vezes não tem a oportunidade de serem ouvidas e simplesmente querem alguém que as ajude a enfrentar questões do dia-a-dia.

Desde quando procurar ajuda para tentar conhecer-se melhor - e isso inclui a orientação sexual, deverá ser proibida por um conselho de profissionais que se preparam exatamente para ajudar pessoas?

O interessante de toda a questão é que ao tirar a alcunha de "doença" desta complexa relação, confortando socialmente aqueles que são, dando-lhe a liberdade devida, tira-se a liberdade de quem quer refutar e dizer que é sim, algum problema relacionado à psiquê humana.

No mais, tolher a liberdade nunca é uma solução boa. Gera-se apenas insatisfação, de todos os lados.





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