Não Quer Trabalhar? Tem Quem Queira.

Quando ainda estava na época do colégio, muitos viam em mim uma potencial estudante de medicina, pelo simples fato de que eu gostava de estudar e ler. Sabem como é, né? Crianças e/ou adolescentes que gostam de passar suas horas debruçadas em livros já tem seus destinos traçados pelos estabelecimentos de ensino e famílias: serão médicos.

Neste período, havia apenas uma faculdade de medicina no meu estado. Vejam bem: todas as pessoas que desejassem estudar medicina no Ceará teriam que estudar em um único lugar. A concorrência era acirradíssima. Quem passasse já teria em sua testa o carimbo de "ser supremo".

Ao contrário de alguns cursos como Direito, Administração e Contabilidade, que se espalhavam em faculdades privadas pela cidade, a Medicina não era e nem poderia ser um curso qualquer para os que determinavam a abertura de novas faculdades. A qualidade dos nossos médicos, como iria ficar? A ideia era manter aquele nicho de vagas para poucos privilegiados.O resultado disso é a pouca oferta de médicos.

Em um país com dimensões continentais como o Brasil, é ilógico que hajam poucos ou quase nenhum profissional de medicina em cidades interioranas. A lógica mesmo era a manutenção dos altos salários. Afinal, pouca oferta, preço alto - e você nem precisa de um diploma de economia para entender isso. 

Atualmente, algumas faculdades particulares puderam ter o aval do todo poderoso MEC para ofertar o curso. Mas mesmo assim, o número de médicos formados ainda não é suficiente para suprir a demanda de quem utiliza o SUS. Neste contexto, o governo brasileiro lançou o programa Mais Médicos, uma tentativa de minimizar (o velho morde e assopra conhecido do Estado) o prejuízo causado por toda essa "preocupação da qualidade dos médicos formados". Como? Investimentos em infraestrutura, mais postos de trabalho e uma maior facilidade na abertura de novos cursos de medicina no país. Tais vagas foram dadas preferencialmente à brasileiros. Caso não fossem preenchidas, médicos estrangeiros poderiam se candidatar. E foi exatamente o que aconteceu.

Como guardião da qualidade dos cursos e protetor de toda a classe médica, o Sindicato dos Médicos do Ceará convocou seus membros a darem boas vindas aos médicos que aceitaram as vagas que os médicos brasileiros rejeitaram por diversos motivos. Olhem a recepção, que calorosa! Combina bem com o sol de Fortaleza:


Lendo alguns comentários nas redes sociais, muitos médicos estão chamando seus colegas cubanos de escravos, gados, manipulados. O que seriam então os médicos que, esquecendo sua educação financiada principalmente pelos pobres brasileiros que trabalham ganhando míseros R$ 678, vão em massa, sob a bastuta de um sindicato, hostilizar profissionais que querem trabalhar? 

Me parece que a única coisa que preocupa alguns profissionais brasileiros da saúde é a manutenção da sua escassez e lógico, do alto salário e status de médico. Quem quer ser médico depois que esta profissão foi banalizada pelo estado brasileiro, abrindo faculdades e vagas por ai? Qual a graça terá encher a boca e dizer que é médico? Qual a vantagem de ser doutô quando agora qualquer estrangeiro poderá vir aqui e se achar no direito de trabalhar no meu país? 

Ironias à parte, se a liberdade fosse uma constante, não haveria tanta polêmica quando se fala em fluxos migratórios, afinal, é natural em um ambiente de livre-mercado, pessoas de fora venham fazer os trabalhos dos que aqui nasceram não querem fazer. Longe de mim fazer a defesa do programa, até porque, como ser a favor de um governo que limita a liberdade profissional das pessoas?

No mais, tá na hora de alguns profissionais entenderem que sucesso não vem à custa de privilégios. Sucesso vem com trabalho e dedicação.










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