De Passagem

Quando era pequena, qualquer pessoa que perguntasse o que eu queria ser quando crescer, a resposta estava na ponta da língua: médica. Aos 9 anos entrei na olimpíada de química. Adorava! Pra mim era uma brincadeira. Na 7 série, as vezes deixava de brincar de boneca (sim, com 13 anos eu ainda brincava de boneca) pra estudar biologia e química, pois estava me preparando pro vestibular que aconteceria  em 4 anos. Continuei nas olimpíadas e focada na medicina até meu segundo ano do ensino médio.

Aos 45 minutos do segundo tempo - diriam os especialistas em futebol,  decidi mudar. Abri um pouquinho de espaço pra outros interesses que não a medicina quando me apresentaram a filosofia e com ela, a política e economia. Me encantei. Achei que poderia fazer mais pelo mundo sendo cientista política, economista ou diplomata.

Lembro até que replanejei minha vida pelos próximos 10 anos. Tenho até hoje o papel em que digo tudo o que iria fazer nos anos seguintes e como eu devia estar.  Não acho um erro planejar sua vida. Te dá um norte, foco. Mas fechar-se nisso estraga o que a existência tem de melhor: a espontaneidade.

Poucas coisas que coloquei naquele papel, eu realmente fiz. Errei? Não digo isso, apenas mudei de trajetória. Me permiti ir por outros caminhos. Acho que nos cobramos muito em relação ao tempo. Parece que estamos envelhecendo mais rápido e que temos que fazer algo no tempo estabelecido, senão perde a validade do ato. A impressão é que não temos a chance de errar, errar, aprender e acertar.

Um exemplo nítido da minha geração foi do cara que tem de entrar na faculdade com X anos, fazê-la em no máximo 5 anos, depois entrar no mestrado, passar pro doutorado, pós-doutorado e tudo isso antes de chegar aos 30 anos! Ufa! Até cansei! Qualquer semelhança com a mulher ter que casar antes dos tais 30 não é mera coincidência. Atualmente, sou economista, ainda quero fazer ciências políticas, desempregada, apaixonada por literatura russa, amo escrever e sonho em ter uma livraria pequena - mas aconchegante.

Essa postagem não é uma "ode ao fracasso", é uma ode à passagem. Estamos aqui brevemente. Nossa vida é pautada na efemeridade e prendê-la aos minutos do relógio não me sugere que realmente estamos aproveitando-a bem.O fato de não ter me tornado uma médica não indica que fracassei. Vivemos de mudanças e, somos o que somos pelo que passamos e aprendemos. A ação humana é pautada em tentativas e erros. 

No mais, a vida começa quando você decide viver sem amarras, não importando quando e nem onde. 


Comentários

Postagens mais visitadas